
... vazia é como me sinto hoje ... é uma dor que não passa, e dou comigo a pensar, à terceira já não me deveria ter habituado ao que sinto ... e sentir menos ... mas o ser humano, animal de hábitos (como nos chamam), só se habitua ao que lhe faz bem, ao que sabe bem, ao que é bom (acho eu) ...
... desta vez não estou a sofrer menos ... acho, até, que estou a sofrer mais ...
... rodopiam dentro de mim incertezas, medos, sei lá ... há horas em que sinto que não vou desistir, mas há outras em que penso se valerá a pena, tentar mais uma vez, para depois haver a probabilidade (mesmo que remota) de voltar a acontecer tudo outravez ...
... e hoje tive mesmo de ir fazer a ecografia, que pensava eu, marcada para saber se estava tudo bem, se havia bebé ... a marcação serviu, antes, para saber se o meu corpo expulsou tudo o que me preenchia, tudo o que me deu tanta alegria até domingo "O Dia da Mãe"...
... e voltou tudo ao normal ... estou VAZIA ...
Fui ter com o médico, incansável com as suas respostas às minhas perguntas mais absurdas, às minhas dúvidas desmesuradas ... e ele deu-me dois meses de descanso, para depois voltar a tentar ... não sei se consigo ... tenho medo ... ele diz-me que não há explicação para o que me aconteceu, e que a sua experiência apenas lhe diz que foram três infelizes coincidências, que não sou a primeira pessoa a quem isto acontece, que é triste, mas é mais comum do que se pensa ... predispus-me a fazer todos os exames possíveis para tentar apurar o que é que se passa, mas ele disse-me que o que eu podia fazer já fiz ... tenho os ovários micopoliquísticos, mas estava a tomar Ultrogestan que resolvia a questão ... já fiz os cariotipos com o meu marido, não há alterações em nenhum dos dois ... não tenho infecções ... as análises estão normais ...
... será que ainda não chegou a minha hora? ... será que nunca vai chegar? ...
... preciso tanto de respostas ... que ninguém me sabe dar ... não quero sofrer assim, é duro ... ganhar num dia a esperança que vai ser desta, e depois acordar deste sonho e viver o maior dos pesadelos ... custa muito ... e talvez mais do que a mim, custa muito também ao homem que eu amo, que tanto como eu, deseja ter um filho, mas que me diz todos os dias, que primeiro estou eu, que não quer que eu sofra, que se eu quiser ficamos por aqui ... amo-te tanto querido ... e neste momento, sofremos os dois, a dor é uma só ... não consigo dizer-te o que quero ... não sei ... não quero pensar ... só quero deixar o tempo passar ... sempre ao teu lado ... desculpa o meu estado de espírito, o meu humor ... desculpa as palavras mais amargas ... não dá para estar melhor ...